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DOM 04 | Abril | 2004
AUDITÓRIO UNIERSIDADE, 21h45
Sessão n.º 2253
21 gramas
21 grams de alejandro gonzález iñárritu


com sean penn, naomi watts, benicio del toro, charlotte gainsbourg, melissa leo, clea duvall, danny huston
argumento · guillermo arriaga
fotografia · rodrigo prieto, fortunato procopio
música original · gustavo santaolalla
origem · eua 2003
formato · 35mm, cor
distribuição · lnk
classificação · m/16


2003 - 125'
Corpos doentes, almas em ferida

Logo na sua primeira obra, o realizador Alejandro González Iñarritu deixara-nos do seu cinema uma ideia de arrojo formal, dureza de conteúdo e ritmos turbulentos. «21 Gramas», a sua segunda longa-metragem, vem confirmar brilhantemente essa teoria.
Na sua fita inaugural, «Amor Cão» (2000), Iñarritu fora nomeado para inúmeros prémios de festivais um pouco por todo o mundo e ganhou mesmo alguns desses troféus. Também o seu filme o foi, tendo, inclusivamente, sido nomeado para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro do ano respectivo. Desse modo, «21 Gramas» surge muito naturalmente como o resultado da curta viagem do cineasta mexicano até ao país vizinho, os EUA. E, curiosamente, este seu novo filme vai estar mais uma vez presente na noite dos Óscares e logo, quanto a mim, com possibilidades muito fortes de vitória nas suas duas nomeações: Naomi Watts, no papel de uma antiga viciada em drogas e então mãe de família a viver uma perda dolorosa, nomeada na categoria de Melhor Actriz, e Benicio del Toro, um ex-presidiário refugiado na religião como meio de fuga à delinquência, candidato à estatueta de Melhor Actor Secundário, são as duas nomeações. Se acrescentarmos a isto a convicção de que o filme possui ainda mais duas esplendorosas interpretações – as de Sean Penn (também ele nomeado para os Óscares mas pela sua participação em «Mystic River», de Eastwood) e Charlotte Gainsbourg – não será difícil aquilatar da portentosa direcção de actores que nele podemos observar.
Mais uma vez, um pouco como acontecia em «Amor Cão», a abordagem argumental de Iñarritu (e do seu argumentista de serviço nos dois filmes) parte da descrição de três diferentes histórias de vidas que inexoravelmente confluem entre si a partir de um acidente em que intervém uma viatura automóvel. Antes disso, Paul Rivers (Penn) é um matemático que carrega dentro de si um coração que ameaça consumir-se a todo o momento e, por esse motivo, deambula entre a vida e a morte enquanto espera pela oportunidade de um transplante. Paul tem ainda um outro motivo de desgaste psicológico já que Mary (Charlotte Gainsbourg), a sua companheira, deseja engravidar mesmo contra a sua vontade.
Noutro âmbito, Jack Jordan (del Toro) é um ex-condenado casado e pai de duas crianças que procura redimir-se do seu passado através de uma exagerada dedicação à religião. Cristina (Naomi Watts), é o elemento final que completa este triângulo de vidas em trágica convergência na narrativa. Ela é esposa e mãe mas também uma mulher com um passado obscurecido pela dependência das drogas.
Diga-se que em questões de arrojo formal é na fantástica montagem com que o filme estimula intelectualmente o espectador mas o obriga a ter uma redobrada atenção ao que se desenrola na fita, que o cineasta mexicano mais impressiona. Efectivamente, sem respeito por uma estrutura temporal exacta parecendo até cronologicamente arbitrária a disposição das cenas, é no entanto genial a forma como tudo se encaixa completando no final um puzzle que é, no mínimo, arrebatador. Em determinados momentos da película chega-se a ter a impressão que aquilo que nos está a ser revelado do futuro da acção é mais que suficiente para percebermos como vai terminar toda a trama. Mas essa é uma sensação errada que nos é deliberadamente oferecida pelas qualidades de Iñarritu como artesão cinematográfico, se é que me é permitida a expressão. Em momento algum essa antevisão nos é permitida ficando-nos mesmo a convicção que apesar do atrevimento formal de Iñarritu, que pode ser entendido como um mal disfarçado desejo de protagonismo do realizador, o seu compromisso é a todos os momentos com a história e materializa-se na justa pretensão de, com essa opção conceptual, criar vários pontos de clímax ao longo de todo o filme.
«21 Gramas» vive ainda dos dramas fortes inerentes (e subjacentes também) à sua própria trama sendo que as personagens, com um percentual muito elevado de quociente de culpa por parte dos actores que as defendem, adquirem uma consistência tal que rapidamente obriga a que tomemos o seu partido. E neste âmbito, o trabalho desenvolvido por Sean Penn, cada vez mais um actor enormíssimo, não parece distinguir-se da interpretação de Naomi Watts, a fazer lembrar a Betty/Diane de «Mulholland Drive» (2001), ou desse secundário de luxo que é o porto-riquenho Benicio del Toro. Assim, numa atmosfera árida que bem a propósito inclui algumas tomadas de imagens (cenas) em solo desértico, a fé, a culpa, a vingança, a redenção e a morte são os elementos que determinam a acção das personagens e possibilitam a crítica sub-reptícia mas mordaz a questões do foro religioso, judicial e político. Sobra de tudo isto um filme admirável no modo como nos estimula o intelecto e sacode a alma. Isto partindo do princípio que ela, a alma, tem afinal um peso estandardizado para todos os seres humanos: os tais 21 gramas.

Joaquim Lucas
In 7arte.net