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| DOM 14 | Novembro | 2004 |
| AUDITÓRIO UNIVERSIDADE, 21h45 |
Sessão
n.º 2298 |
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Fahrenheit 9/11 |
de Michael Moore |
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Com Michael Moore, Ben Affleck, John Ashcroft,
Khalil Bin Laden, George Bush, George W. Bush
Fotografia · Mike Desjarlais
Origem · Eua 2004
Duração · 122’
Formato · 35mm, Cor
Distribuição · Lusomundo
Classificação · M/12
2004 - 122' |
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George W. Bush, às 9h05 da manhã do dia 11 de Setembro de 2001, encontra-se numa escola primária no momento em que lhe é comunicado o ataque às Twin Towers. Nesta sequência perturbadora de «Fahrenheit 9/11», o que nos esconde o seu rosto?
Segundo Lévi-Strauss, acontece com os fenómenos históricos e sociais o mesmo que com a pasta italiana: «sabem» de modo diferente consoante o corte ou segmentação que deles se faça. Este filme panfletário não é distinto da massa italiana e as considerações que sobre ele tecermos não diferem do lugar (político, social, económico) que nos situa e dos hábitos das gustativas. Fahrenheit 9/11, como se sabe, orienta o melhor da sua energia e dom a procurar provar que a família Bush está feita com a família Bin Laden, numa unilateral relação de amo e escravo, onde os Bush não levam a melhor. O filme, depois de ter contornado nos EUA tentativas explícitas de censura, apresenta-se como um paladino da liberdade de expressão - na sequência, aliás, de inúmeras cartas que Michael Moore tem endereçado na imprensa e no seu blogue ao Presidente Bush -, apesar de estar no centro de uma controvérsia sobre a veracidade do que afirma e os abusos de uma montagem (de citações ou imagens) que privilegia a eficácia ao contexto. Ou seja, acusa-se Moore de, para sustentar a sua teoria conspirativa, recorrer a truques da publicidade amassando de uma penada a verdade e o cinema.
É preciso começar por dizer que esta forma de distorcer a realidade não é nova e que, provavelmente, não há realidade (social) não distorcida. Se passarmos os olhos por The Invention of Tradition (1983), de E. Hobsbawm, multiplicam-se os calafrios. Que diria o leitor se soubesse que os «kilts» escoceses apresentados em Rob Roy estão desenquadrados e que o kilt é uma invenção do século XIX? Só mudou a velocidade de «naturalização» das ideias, a mistificação é a mesma.
Moore é um surfista da política. A sua arte está ao serviço, procura o ouro dos fins, onde qualquer alternância ou habilidade na relação entre meios e fins é só perda de tempo: só os fins importam, e estes não se compadecem com dialécticas, complexidades, nuances. Por outro lado, está fora de moda a responsabilidade cultural e intelectual de perseverar a distância entre essência e aparência, entre objecto e representação, entre as análises e as opções, o conhecimento e as decisões. A hibridização está disseminada e não é possível continuar a fazer juízos - da política aos objectos estéticos - por dicotomias, jogando puros contra impuros. Michael Moore está integrado, e não o esconde, no universo da política-espectáculo, e acusá-lo de opor às mentiras de Bush uma igual manipulação discursiva não faz sentido, pelo simples facto de Moore ser o primeiro a confessá-lo e a usar as regras do jogo em vigência, não reivindicando para si uma posição de «outsider». Quem está fora do sistema não estreia simultaneamente em oitocentas e tal salas, apesar do boicote da Disney. Tarantino tinha razão quando, em Cannes, dizia que Fahrenheit 9/11, para além de um filme «engagé», era «cinema puro» (leia-se: manipulação de materiais narrativos até à diluição do referente externo na sua organicidade formal).
Quem julga ainda que vai ver um documentário desengane-se: vai ver um exercício narrativo polvilhado de «efeitos de real», com o propósito de dar sentido a uma teoria conspirativa. E como contra-propaganda, diga-se, é bastante convincente, e será difícil à Administração Bush descartar-se dos efeitos desta bomba. Como se adivinha, é impossível dissociar neste filme forma e conteúdo - como acontece, por muito que isso chateie os «puros», indiferenciadamente, quer nos melhores «spots» de publicidade quer nos melhores filmes de ficção -, pelo que a opção aqui está limitada à decisão de embarcar ora nas «ficções» de Bush, ora nas «manipulações» de Moore; duas perspectivas do mesmo pensamento único. No caso de aceitar-se esta dicotomia primária e considerando que, com Bush, vem mais mal ao mundo que bem, sendo que o inverso se verifica com Fahrenheit 9/11, não é difícil escolher o partido de Moore e rir com a sua irreverência e algumas questões pertinentes que coloca ao estado da democracia americana.
António Cabrita,
in ÚNICA Expresso, 31 Jul '04 |
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