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| DOM 19 | Dezembro | 2004 |
| AUDITÓRIO UNIVERSIDADE, 21h45 |
Sessão
n.º 2306 |
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30 Dias de Fast Food |
Super Size Me de Morgan Spurlock |
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Fotografia · Scott Ambrozy
Origem · EUA 2004
Duração · 100’
Formato · 35mm, Cor
Distribuição · New Age Entertainment
Classificação · M/16
2004 - 100' |
Big indigestão
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u nunca tinha recebido uma carta de uma multinacional, mas isso alterou-se graças ao actor e realizador americano Morgan Spurlock e ao seu documentário «Super Size Me: 30 Dias de Fast Food». Spurlock passou um mês a comer só na McDonald`s - de manhã à noite, todos os menus, em várias partes dos EUA -, dispensando qualquer exercício físico durante esse tempo, transformando-se, obviamente, num homem com grandes problemas de saúde, do colesterol à potência sexual. A recompensa: ganhou o prémio de Melhor Realizador no Festival de Sundance e viu o filme tornar-se no quarto documentário mais lucrativo de sempre.
Daí que, na semana passada, a McDonald`s me tenha endereçado - e a não sei quantos mais críticos de cinema portugueses - uma simpática e esclarecedora carta a prevenir a estreia em Portugal de «Super Size Me: 30 Dias de Fast Food», onde aquela cadeia de fast food explica que o filme "reflecte uma situação extrema de consumo diário e exclusivo de determinados produtos McDonald`s" e que de forma alguma pretende que os consumidores caiam neste tipo de excesso.
Nos EUA, a McDonald`s acusou o toque do documentário de Spurlock, retirando do mercado os menus gigantes, os super size do título original, e criando novas saladas, o que se integra bem na saudável tradição da influência exercida pelo little guy que se levanta contra a big corporation. Especialmente quando o little guy em questão empunha uma câmara de filmar digital...
As citadas explicações do gigante americano do pronto-a-comer são, afinal, tão obviamente ululantes como o propósito de Morgan Spurlock se submeter a uma dieta de calóricos Big Macs e Chicken McNuggets: a ingestão de fast food com muita regularidade e em excesso dá cabo da saúde e engorda (tal como se passarmos um mês a comer dobrada, feijoada ou papas de sarrabulho do pequeno-almoço ao jantar).
Convém saber, antes de ir ver «Super Size Me: 30 Dias de Fast Food», que Morgan Spurlock costumava apresentar, na MTV, um programa intitulado "I Bet You Will", onde apostava com os concorrentes que eles não eram capazes de fazer uma qualquer proeza estapafúrdia, a troco de um prémio.
Daí que este documentário, além de ser uma denúncia bem-disposta e muito pouco "militante" da indústria de fast food, personificada pela McDonald`s, e um aviso contra os perigos da obesidade - um flagelo tão grande nos EUA que já foi tema de capa de um dos últimos números da National Geographic -, seja também uma versão cinematográfica e pessoalizada de uma dessas proezas estúpidas que Spurlock incitava os outros a fazer na televisão, mesmo tendo em conta o acompanhamento médico.
Ou seja, há em «Super Size Me: 30 Dias de Fast Food» uma componente de humor universitário tipo Animal House, alarve e exibicionista, que lhe mina os propósitos mais sérios. E diga-se de passagem que a McDonald`s é um alvo tão fácil como um celeiro a dez passos de uma caçadeira.
Morgan Spurlock apresenta-se como uma espécie de sucedâneo pândego e peso-pluma de Michael Moore, o que não o livra de entrar em tantas ou mais contradições do que o autor de «Fahrenheit 9/11».
Assim, Spurlock dá tempo de antena a consumidores felizes de McDonald`s, desmente a sua tese de que a fast food é viciante, impossível de resistir, quando, mal disposto, deita o almoço fora pela janela do carro e fica cheio de náuseas, e é suficientemente honesto para lembrar que é preciso esforço para criar habituação a algo. O que compromete a ideia do filme segundo a qual o vício - da junk food, neste caso - é, no fim do dia, uma escolha e não uma insidiosa imposição exterior ou uma "doença".
Os melhores momentos de «Super Size Me: 30 Dias de Fast Food» acabam por ser quase todos laterais ao tema central do documentário, como a cena onde Spurlock pergunta ao advogado das duas raparigas que processaram a McDonald`s por terem engordado como uns potes o motivo de ter aceite o caso, e ele responde: "Além do dinheiro? Quer uma causa nobre?"
O mundo da advocacia dava um grande documentário...
Eurico de Barros
In Diário de Notícias, 21 Out ‘04 |
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