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TER 17 | Janeiro | 2006
Centro Cultural Vila Flor, 22h
Sessão n.º 2390
A Minha Viagem a Itália (1ª parte)
Il mio Viaggio in Italia de Martin Scorsese


com Martin Scorsese
argumento · Suso Cecchi d'Amico, Raffaele Donato, Kent Jones, Martin Scorsese
fotografia · Phil Abraham, William Rexer
origem · EUA 1999
classificação · M/12


1999 - 120'
Somos todos neo-realistas

Para além das questões económicas e das especificidades artísticas, há uma crise simbólica do cinema que a televisão todos os dias reflecte e, pior do que isso, agrava: a maior parte das formas de tratamento televisivo do cinema vai favorecendo uma imagem dos filmes (e dos próprios profissionais que os fazem) entre o pitoresco caricatural e a indiferença estética. Sempre, claro, através da banalização do simples facto de o cinema possuir um património narrativo, formal e mitológico alicerçado em mais de um século de existência.

É neste contexto de quotidiana agonia televisiva dos filmes que "..." A Minha Viagem a Itália (1999), de Martin Scorsese, uma série de quatro episódios sobre a história do cinema italiano. O menos que se pode dizer é que o admirável trabalho do cineasta de Taxi Driver e O Aviador nos mergulha na fascinante pluralidade do cinema italiano, ao mesmo tempo que encerra uma pedagógica lição televisiva. Que é como quem diz: é possível fazer televisão, satisfazendo a sua lógica formativa e informativa, privilegiando a inteligência do olhar e o desejo de compreender, ao mesmo tempo que se respeita a nobreza patrimonial do cinema.

A série tem um antepassado directo num outro trabalho de Scorsese, neste caso sobre o cinema americano: A Personal Journey with Martin Scorsese through American Movies (1995). Assim, a perspectiva histórica não nasce de nenhum saber “professoral”, “teórico” ou “crítico” que se queira impor ao espectador como verdade intocável. Nada disso. Scorsese parte sempre da sua história pessoal, revisitando memórias da infância e adolescência para situar e, à sua maneira, celebrar a perene paixão pelos filmes e cineastas italianos. Assistimos a uma evocação em que os filmes italianos dos anos 40 surgem, de uma só vez, como revelação de uma arte singular e ponte temática e afectiva para as raízes italianas dos pais e avós do futuro realizador de A Última Tentação de Cristo.

Daí que Scorsese centre toda a sua relação com os italianos na descoberta do neo-realismo. No primeiro episódio, em particular, a extraordinária deambulação pela trilogia de Roberto Rossellini — Roma, Cidade Aberta (1945), Paisà (1946) e Alemanha, Ano Zero (1948) — faz-nos perceber a vitalidade imensa de uma atitude enraízada no desejo de verdade e num obsessivo mergulho no concreto do real.

Scorsese desafia, implicitamente, a moral da “reality TV” e de todas as imposturas televisivas que promovem a ideologia da espontaneidade e da indiferença. Estamos muito longe do naturalismo asséptico com que muitas séries “históricas” se esforçam por matar a sensualidade da memória. Há neste neo-realismo exuberante, revisto e reinventado para os nossos dias, uma energia expressiva que decorre de uma dupla exigência ética: a identificação dos grandes movimentos colectivos vai a par de um respeito inabalável pela singularidade humana de cada ser.

João Lopes, in DN 10 Jul'05