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DOM 15 | Julho | 2007
Centro Cultural Vila Flor, 21h45
Sessão n.º 2536
20,13 - Purgatório
de Joaquim Leitão


com Marco D'Almeida, Adriano Carvalho, Carla Chambel, Maya Booth, Ivo Canelas, Nuno Nunes
Argumento Tino Navarro, Luís Lopes, Joaquim Leitão | Fotografia José António Loureiro | Música Original António Emiliano | Origem Portugal 2006 | Duração 110’ | Classificação M/16


2006 - 110'
Homens em luta

Há um crime que se adivinha passional. Há uma mulher (fatal?) - ou melhor duas (qual delas a mais fatal?) - num universo claustrofóbico, fechado, de homens em luta, longe de tudo, isolado do mundo. Há um homem que tem de resolver o crime antes que a situação escape ao controle. Há citações bíblicas, suspeitos, pistas verdadeiras e falsas. Há todas as regras do policial clássico, duro, seco - transpostas para uma base militar portuguesa num canto remoto de Moçambique em plena guerra colonial, numa véspera de Natal sob ataque inimigo. Uma panela de pressão que vai testar a determinação de uma companhia de Caçadores até aí unida, comandada por um herói de guerra que esconde um segredo pessoal.
Segredo de polichinelo - o "trailer" revela muita coisa que não devia revelar, envolvendo "20,13" num leve aroma de sensacionalismo que não lhe faz favores nenhuns. Mas, ao mesmo tempo, o "trailer" apenas sublinha como o centro do filme não é essa intriga policial que parece funcionar como seu motor: não passa de um simples "macguffin" que permite ao realizador desenhar um retrato de grupo, incisivo, de homens sob pressão.
Não é por acaso que assim seja: "20,13" - que começou por se chamar "Purgatório" - é a segunda parte de uma trilogia à volta da guerra colonial iniciada com o excelente e incompreendido "Inferno" (1999). Já aí, numa história de cariz policial passada no Portugal contemporâneo, Leitão explorava as dinâmicas interiores de um grupo de homens cuja amizade foi moldada no cadinho violento da guerra colonial. Em "20,13", o realizador faz "marcha atrás" para se debruçar sobre o "olho do furacão", sobre o próprio cadinho, filmando de modo tenso e seco os laços de camaradagem entre homens forçados a matar ou morrer, onde aquilo que se é (branco, preto, nortenho, alentejano, intelectual, analfabeto, homo- ou heterossexual) pouca ou nenhuma importância tem face à necessidade de garantir a sobrevivência - não só pessoal, mas também daqueles que ali estão. É com esses laços sociais e emocionais que a psicologia militar joga ao desenhar os programas de treino que vão transformar os mancebos em soldados - e, paradoxalmente, o momento de abnegação em que um soldado se sacrifica pelos camaradas é tudo menos patriótico, militarista ou político: é uma questão pura e simples de sobrevivência do grupo. (...)
E não é preciso mais do que uma breve conversa de passagem (ainda por cima magistralmente interpretada por Adriano Carvalho e Marco d"Almeida) para percebermos que o capitão Costa é um homem "do regime" que acredita (talvez para se convencer a si próprio) nos "valores mais altos" do guerreiro português e que o alferes Gaio é um dos jovens "relutantes" enviados para combater uma guerra absurda em que não acredita. Claro que nenhum dos dois é aquilo que parece - o herói do regime sente-se dilacerado pela sua "fraqueza" carnal que o perde (literalmente) de amores por um enfermeiro da companhia (Angélico Vieira, um dos integrantes dos D"ZRT), o "resistente" parece ter sido feito para a vida militar. Ambos acabam por reconhecer demasiado de si no outro, sublinhando ainda mais as dinâmicas quase exclusivamente masculinas que animam o filme. Talvez não seja, por isso, de espantar que este filme de homens dê às mulheres um papel determinante mas quase passivo. O "macguffin" policial é posto em movimento pela presença na base de Esperança (Carla Chambel), a mulher do médico e seu objecto de ciúme, e pela chegada de Leonor (Maya Booth), a mulher do capitão que vem passar o Natal com o marido da qual está desavinda. Juntas, a sensual Esperança e a angustiada Leonor funcionarão como "gatilho" dos crimes que propulsionam o fio condutor do filme, ao obrigar estes homens a confrontar-se com as suas pulsões mais escuras que acabam por trazer ao de cima sem o esperar, acusadas nas citações bíblicas encontradas junto aos corpos (uma das quais, o versículo 13 do capítulo 20 do Levítico, "dobrada" de número de cacifo da camarata dos soldados, dá o título ao filme). Mas o seu papel resume-se precisamente ao de gota d"água que faz transbordar o copo: mais do que personagens de corpo inteiro, Esperança e Leonor são "bonecos" meramente funcionais cuja presença é necessária para a conveniência da narrativa, mas não cumprem nenhuma função dramática. (...)
"20,13" é, provavelmente, o melhor trabalho de Joaquim Leitão, na intersecção do que deve ser um cinema que pensa no grande público (e não o trata como atrasado mental) mas tem evidente marca autoral. Deseja-se ardentemente que não lhe caiba em sorte o mesmo acolhimento frio que recebeu "Inferno": seria imerecido e profundamente injusto passar ao lado de um filme assim.

Jorge Mourinha
In Y Público, 22 Dez’06