Untitled Document
  Página Inicial
Untitled Document
botao
botao
botao
botao
botao
 


 
DOM 05 | Julho | 2009
Centro Cultural Vila Flor, 21h45
Sessão n.º 2720
Che – O Argentino
Che: Part One - The Argentine de Steven Soderbergh


com Benicio Del Toro, Demián Bichir, Alfredo De Quesada, Elvira Mínguez, Julia Ormond, Pablo Guevara
Argumento Adaptado. Peter Buchman | Fotografia. Steven Soderbergh (sob o pseudónimo Peter Andrews) | Música Original. Alberto Iglesias | Origem. França/Espanha/Reino Unido 2008 | Classificação. M/12


2008 - 134’


A figura de Che Guevara é tão odiada quanto amada e a história da ascensão deste símbolo de insurreição e revolução tem sido muito estudada e explorada ao longo dos anos, e também em cinema. Ainda não há muito tempo foi criado por Walter Salles um belissimo filme, Diários de Motocicleta, sobre a viagem pela América do Sul que mudou o jovem médico e o transformou em algo “mais”. Mas este projecto de Steven Soderbergh é mais ambicioso e retrata duas etapas importantes na imortalização do guerrilheiro: a sua vitória moral e intelectual em Cuba e o seu declínio subsequente na Bolívia. E apesar de não tencionar inicialmente dividi-lo em duas partes assim acabou por acontecer por pressão das distribuidoras.

Em O Argentino assistimos à génese da amizade com Fidel Castro e a luta de ambos para derrubar o regime cubano de Fulgencio Batista em nome do Movimento 26 de Julho. Vemos Che no seu máximo potencial, numa batalha conjunta e solidária pelo idealismo político e contra a tirania instaurada, uma utopia que anseia espalhar pela restante América Latina, que foi vendo perecer ao longo dos anos. Mas, em jeito de elipse temporal a enquadrar a narrativa, observamo-lo numa ida aos Estados Unidos para discursar nas Nações Unidas e, no decorrer de uma entrevista com uma jornalista americana, apercebemo-nos que se tratam de homens completamente diferentes. Não deixando de querer seguir os princípios essenciais que se impôs durante a tomada de Cuba é inerentemente um ser humano ressentido, pelo passar do tempo e pelo desmoronamento dos frágeis sonhos que visionou.

Tudo faz parte da personagem edificada com soberba maestria por Benicio Del Toro, naquela que será talvez a sua melhor interpretação. Nunca recorrendo à simples personificação do ícone, o actor apaga as fronteiras que delimitam a compreensão do homem por detrás do símbolo, atribuindo-lhe muito mais que humanidade, mas sobretudo uma verdade em cada olhar e palavra. É possível distinguir os dois homens em Del Toro e é surpreendente como transmite tamanha genuidade e inteligência de forma naturalmente e quase imperceptível. Talvez pela subtileza da composição tenha sido tão brutalmente ignorado pelos corpos americanos de premiação, que aparentemente preferem objectos mais vistosos e inconsequentes.

Não deixa também de ser estranho notar que este filme, falado totalmente em espanhol, seja concebido por alguém cuja realidade parece estar muito longe da que aqui é revelada. Mas a verdade é que Steven Soderbergh, não só na realização como na fotografia sob o pseudónimo Peter Andrews, não filmava tão bem desde o brilhante Traffic e parece demonstrar aqui novo fôlego e ímpeto na reinvenção da sua própria arte e da abordagem à mesma, sempre definida por uma não definição. Desenvolve toda a narrativa a partir da evolução da personagem e enquadra-a sem quaisquer falhas no ambiente circundante, demonstrando uma visão incisiva não só a nível dramático mas na própria acção, sempre astuta e inquietante. É muito difícil avaliar O Argentino já que é evidente que falta uma parte substancial e crucial da história de Che, mas individualmente constitui também uma obra entusiasmante e reveladora.

Nuno Gonçalves, in revistaredcarpet.com