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QUI 22 | Outubro | 2009
Centro Cultural Vila Flor, 21h45
Sessão n.º 2745
Bellamy
de Claude Chabrol


com Gérard Depardieu, Clovis Cornillac, Jacques Gamblin, Marie Bunel
Argumento. Odile Barski e Claude Chabrol | Fotografia. Eduardo Serra | Música Original. Matthieu Chabrol | Origem. França 2009 | Formato. 1.85:1 | Classificação. M/12


2009 - 110'
Eterno recomeço

Bellamy termina como começa, com um plano sobre um automóvel calcinado, caído de uma falésia à beira-mar. Eterno recomeço para Chabrol, em primeiro lugar, que, de filme em filme, traça conscientemente o mesmo percurso e expõe, com o seu humor tingido de cinismo, o mal inextinguível que atormenta as consciências de pequeno burguês. Eterno recomeço também para o seu filme que, propondo-nos pela segunda vez os mesmos ingredientes (um «suicídio assistido» e um culpado designado a priori), conclui com a impossibilidade que o género humano tem de se desfazer da sua face sombria.

O grande feito do filme é incontestavelmente a personagem singular de Paul Bellamy, representada por um Depardiu frágil e envelhecido, cujo desempenho recheado de subtilezas se aproxima do que conseguiu em “Os Tempos que Mudam”, de André Téchiné. Comissário de polícia em férias perpétuas, celebridade respeitada e que prefere o conforto do sofá, Bellamy está perdidamente apaixonado pela sua esposa (Marie Brunel, misteriosa e magnífica de sensualidade), pontua as suas reflexões de murmúrios pré-senis, resiste dificilmente ao que lhe resta de pulsões sexuais e dedica o seu tempo livre a investigar por conta própria – paralelamente à investigação oficial – um caso de assassínio. A sua investigação apaixona-o, mas contenta-se com um papel de espectador: não deseja tanto estabelecer a verdade como deleitar-se da história que se desenrola sob os seus olhos e da qual é testemunha privilegiada. Tal como se prolongasse a leitura de um bom livro, Bellamy não tem pressa que o caso termine e nada faz para acelerar a sua resolução.

Bellamy é um projecto ambicioso e seriam necessários vários filmes para esgotar todas as potencialidades e todas as personagens. Chabrol resolve este problema abandonando o realismo em proveito de uma abordagem teatral que lhe abre novas possibilidades. Pode assim propor uma abordagem esterotipada das personagens secundárias sem que o filme se ressinta disso (o dentista homossexual, a pin-up esteticista). (…) Mas esta abordagem teatral permite sobretudo que Chabrol não poupe ninguém, envolvendo todas as personagens no caso. (…) Todos estão implicados, todos são potencialmente suspeitos, ninguém é totalmente estranho aos assassínios, aos suicídios e às fraudes. Cada um contribui, em graus diversos mas raramente nulos, para a génese do mal, mesmo que nos apercebamos finalmente que algumas destas ligações não cumpriram outro papel que o de entreter a dúvida e a suspeição. (…)

(…)

A única alternativa que Chabrol propõe para escapar aos vícios da burguesia é um cruzeiro no Egipto, para o qual Françoise, a mulher de Bellamy, o tenta arrastar. Mas a perspectiva de uma estada no Nilo – cúmulo do consumismo seguidista e inepto - não é convincente, e não podemos deixar de estar de acordo com o mestre, quando recusa a viagem para se consagrar ao estudo muito mais fértil da crueza do espírito humano.

Frédéric Caillard, in critikat.com (24 Fev’ 09)