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| TER 23 | Fevereiro | 2010 |
| Centro Cultural Vila Flor, 21h45 |
Sessão
n.º 2773 |
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Amarcord |
de Federico Fellini |
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com Magali Noel, Bruno Zanin, Pupella Maggio, Armando Brancia, Giuseppe Ianigro, Nando Orfei, Ciccio Ingrassia
Argumento. Federico Fellini, Tonino Guerra | Fotografia. Giuseppe Rolunno | Música Original. Nino Rota | Origem. Itália/França 1973. Formato. 1.85:1 | Classificação. M/12
1973 - 127' |
Memória de Fellini
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Amarcord é um poema,uma cantata nostálgica,um caleidoscópio, um devaneio, um acto de magia, um sonho. Tudo isso num filme fascinante, daqueles que se enrolam em nós e nos seduzem indefinidamente, ao ponto de querermos que nunca acabe, nunca nos obrigue ao acordar de sair para fora dele, para a rua do nosso quotidiano ou para a estrada difusa das nossas próprias memórias que nunca têm aquele grau de encantamento.
Amarcord é o cinema de Federico Fellini no ponto ómega, um cineasta que levou ao cúmulo a noção de autor. Se autor é, por definição, aquele que nos dá uma particular visão do mundo, Fellini tomou isso tão à letra que na maior parte da sua vida não se limitou a filmar o mundo, filmou o seu próprio mundo, filmou-se. Amarcord é o seu desvio para a adolescência na Rimini dos anos 30, do fascismo antes da guerra, olhando os professores, as famílias, os companheiros, a política, os ritos sociais, a passagem das estações, a geografia sensorial da sua cidade natal, com as pedras, a memória histórica e as projecções fantásticas da libido jovem em turbada erupção, com as três figuras femininas que nunca alguém que tenha visto o filme consegue esquecer: Volpina, a do desejo à solta, sem rédea, nem pudor, a sexualidade desatinada; a mulher da tabacaria, enorme, com uns seios onde cabe todo o fundo e onde se sufoca; Gradisca, a vamp que sonha encontrar o seu Gary Cooper e que, por uma noite, fora amante (real ou mítica, não importa) de um principe que parecia saído do mundo imaginário do cinema e não de alguma realidade palpável. Nada de naturalista acontece no filme, nem por um minuto o espectador se dispõe a tomar aqueles personagens e aquelas situações como se olhadas através de uma janela aberta. O contrário do que o cinema americano instituiu como norma. E, todavia, tudo aquilo é «real» no sentido mais profundo da palavra, aceitando nós que a memória é sempre coada por um filtro e que quem conta um conto não resiste a acrescentar-lhe um ponto. Aliás, Fellini nunca quis enganar ninguém: «Não tenho grandes recordações e depois despejei tudo nos filmes que fiz. Entregando-os ao público, apaguei as minhas recordações e agora já não sei distinguir o que aconteceu na verdade e o que inventei. A verdadeira recordação sobrepõe-se a recordação dos cenários pintados, do mar de plástico, e as personagens da minha adolescência riminesa são como que empurradas às cotoveladas pelos actores» (in Fellini por Fellini, Publicações Dom Quixote, 1985). Cenários pintados, mar de plástico, sim - porque Amarcord não é apenas um apogeu do filme de autor, é, ao mesmo tempo, um píncaro do cinema industrial, onde se pode construir uma cidade e um oceano falsos, onde se pode fabricar a neve e o sol, a noite e a madrugada, odaliscas e camisas negras. Isto é, a maquinaria cinematográfica em todo o seu esplendor, o estúdio erigido à condição de caverna onde tudo é possível fazer acontecer. E isso é talvez uma das coisas mais preciosas que esta reposição nos vem mostrar: há 30 anos, há apenas 30 anos, havia um cinema na Europa - e na Itália, em particular - onde autor e indústria eram termos que se fundiam e tinham prolongamento em consistentes sucessos de público. Mergulhar nesta fita é, por isso, mergulhar nas visões de Fellini e, em simultâneo, visitar uma época do cinema que as condições político-econórnicas fizeram desaparecer. Arnarcord é já - ele mesmo - uma memória.
Jorge Leitão Ramos
in CARTAZ Expresso, 15 Ago 2003 |
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