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TER 02 | Março | 2010
Centro Cultural Vila Flor, 21h45
Sessão n.º 2775
A Eternidade e um Dia
Mia Aioniotita kai mia Mera de Theodoros Angelopoulos


com Bruno Ganz, Isabelle Renauld, Fabrizio Bentivoglio, Achileas Skevis
Argumento. Theodoros Angelopoulos, Tonino Guerra, Petros Markaris | Fotografia. Giorgios Arvanitis, Andreas Sinanos | Música Original. Eleni Karaindrou | Origem. Grécia/França/Alemanha/Itália 1998 | Formato. 1.75:1 | Classificação. M/12


1998 - 137’
Theo Palmopoulos

Aos 63 anos, à quinta participação, Theo Angelopoulos ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes [N.R.: de 1998] com "A Eternidade e um Dia". Angelopoulos é um cineasta que qualificamos - para resumir - de confidencial. O seu público é-lhe fiel, e depois do seu primeiro filme, em 1970, inscreve-se sistematicamente nos catálogos dos festivais. O cinema de Theo Angelopoulos, nascido em Atenas em 1935, está impregnado de nostalgia, e filma a memória e o passar do tempo para melhor compreender o mundo actual. Razão pela qual prefere os longos planos-sequências, onde pode misturar, numa mesma cena, o passado e o presente de modo a fazer sentir a evolução. Longo nas sequências, curto nas respostas.


Em que é que pensou quando subiu ao palco para receber a Palma de Ouro?
Em nada, não pensei em nada. Foi como se houvesse uma décalage entre mim e a cerimónia. A cerimónia estava no presente, eu não.

Depois daquilo que se verificou com "O Olhar de Ulisses" não pensou: finalmente a Palma?
Quando se participa em concursos - e um festival é um deles - aceita-se as regras do jogo. O que aconteceu em relação a "O Olhar de Ulisses" foi um mal entendido. Tentei fazer humor, mas não resultou.

E acha que ganhou desta vez pelo facto de "A Eternidade e um Dia" ser mais acessível do que os seus restantes filmes?
Não me coloco esse tipo de questões. O que eu faço é "marginal", fora do sistema. Os meus orçamentos são pequenos, e isto permite-me ser livre.

Todos os seus filmes foram seleccionados para festivais. É um desejo pessoal?
Não tenho culpa disso.

Os festivais são-lhe úteis?
Sim, este tipo de filme deve ir aos festivais. E eu preciso de dar a conhecer o meu trabalho. O meu primeiro filme "A Reconstituição", de 1970, ganhou dois prémios e depois começaram as solicitações dos festivais.

E depois desta Palma?
Vou parar com os concursos e pedir para ir fora de competição.

Dá dinheiro a ganhar aos seus produtores?
Acho que sim, não muito, mas algum. Senão eles deixariam de os produzir. Afinal, não são mecenas! Os meus filmes vendem-se no mundo inteiro. O meu público não é forçosamente enorme, mas é fiel. Sobretudo depois de "A Viagem dos Comediantes", que toda a gente considera uma obra-prima.

O cinema grego não é florescente. Como é que consegue continuar?
Os meus filmes não são verdadeiramente gregos. Pelo menos ao nível da produção. O dinheiro vem um pouco de todo o lado e eu sou conhecido por fazer cinema europeu. Tenho sorte porque isto é fácil.

O que é um cineasta europeu?
É uma pessoa que venceu a influência dos cinemas inglês, italiano ou francês.

E a América?
Nunca me senti atraído por esse país, ao contrário do meu amigo Wenders, que ficou obcecado. A primeira experiência de Wim não foi boa (Hammett, 1981), Zabriskie Point (produzido nos Estados Unidos) não é o melhor filme de Antonioni; e não foi por acaso que Fellini e Bergman nunca lá foram. Mas gosto muito daquilo, dos intelectuais, principalmente. Mas não são eles que tornam os filmes sucessos de bilheteira e o meio americano não me conviria.

Não tem a impressão de estar sempre a fazer o mesmo filme?
Não é uma impressão, é completamente consistente. Todos os cineastas que têm um universo próprio, como Bergman ou Antonioni, fazem o mesmo filme. Mas acrescentam-lhe capítulos novos.

Em "A Eternidade e um Dia", há uma cena na praia onde se faz referência a "A Viagem dos Comediantes". É deliberado?
Sim, eu cito-me frequentemente. As personagens de "Paisagem no Nevoeiro", por exemplo, pertencem a certos filmes precedentes. Há mesmo diálogos iguais. É deliberado.

Sempre foi nostálgico?
Sempre tive a noção do passar do tempo. Vocês que são jovens têm o futuro à vossa frente. A nós, é o passado que nos ajuda a viver. Vivemos todos com o nosso passado, que coexiste com o presente. E por vezes, os tempos misturam-se. É neste universo que eu trabalho.

Como vai ser o seu próximo filme?
Não tenho nenhum tema em mente. Até ao fim de Janeiro vou apresentar este filme no mundo inteiro. Depois, vou-me dar ao luxo de viver e envelhecer.

Gilles Verdiani (in Premiere, Novembro 1998)