Untitled Document
  Página Inicial
Untitled Document
botao
botao
botao
botao
botao
 


 
Apoio
DOM 07 | Março | 2010
Centro Cultural Vila Flor, 21h45
Sessão n.º 2777
Um Profeta
Un Prophète de Jacques Audiard


com Tahar Rahim, Niels Arestrup, Adel Bencherif, Hichem Yacoubi
Argumento Adaptado. Thomas Bidegain, Jacques Audiard | Fotografia. Stéphane Fontaine | Música Original. Alexandre Desplat | Origem. França/Itália 2009 | Formato. 1.85:1 | Classificação. M/16


2009 - 155'


Filme de prisão, filme de máfia, filme sobre a paisagem social francesa contemporânea, mas antes disto um filme sobre a aprendizagem.

"A ideia é sair daqui um bocado mais esperto", ouve Malik da boca da sua primeira vítima, segundos antes de lhe rasgar o pescoço. Malik, o herói (ou se preferirem, anti-herói) de "Um Profeta", é certamente um "visionário", capaz de projectar o seu futuro a longo prazo, e capaz de antever o perigo imediato, como na cena com um acidente de automóvel em que lhe perguntam "quem és tu, um profeta"?

Mas se calhar quem lhe deu a luz a ver, quem foi "o profeta do profeta", foi o seu primeiro sacrificado, Reyeb, que lhe falou dos livros e de tudo o que podia aprender na prisão para sair dali "um bocado mais esperto". E Reyeb, nas cenas em que Jacques Audiard mais faz vacilar o seu tão elogiado "realismo", torna-se uma "presença" constante junto de Malik, uma parte dele (ou da sua consciência), um "enviado" sabe-se lá de onde (do inferno, provavelmente). Filme de prisão, certo, filme de máfia, certo, filme sobre a paisagem social francesa contemporânea, ainda certíssimo: mas antes disto, ou através disto, "Um Profeta" é um filme sobre a educação e a aprendizagem.

Grande Prémio do Júri no último Festival de Cannes, "Um Profeta" sucede, na filmografia de Audiard, a "De Tanto Bater o Meu Coração Parou" (2005). A tradição realista francesa, que já viu dias melhores e dias piores mas é talvez a mais antiga "persistência" do cinema francês, tem em Audiard, actualmente, um dos mais talentosos cultores. E se o realismo, nestes termos, é muito mais uma questão de intensidade (das acções e das emoções, dos actores e dos lugares) do que de fidelidade sociológica, não impede que uma coisa e outra se encontrem – e talvez por isso este seja o filme de Audiard mais ecos tem provocado internacionalmente. "Um Profeta", com a sua história
à volta dum miúdo árabe analfabeto que na prisão é "adoptado" pelo chefe de uma associação mafiosa corsa, num universo (sempre "comunicante" para além da prisão) povoado por magrebinos, bascos, marselheses, grupos e clãs de identidades muito marcadas e - para todos os efeitos, com figura de estilo ou sem ela - "marginais", tem tudo para fazer multiplicar o seu impacto realista. Mesmo se - ainda a "educação" - Malik tem a inteligência (o cinismo) de, justamente, não se deixar aprisionar numa lógica de grupo, sejam a lógica e o grupo os que forem. "Só nos queres usar", dizem-lhe a certa altura parceiros de ocasião; "e então?", responde ele. E então?, se este "uso" (e usufruto) é a alma do negócio.

E também, de certa maneira, a alma do melodrama que corre em fundo, a história da relação paternal entre o velho corso e Malik: acaba mal, porque Malik percebe que o poder "oferecido" não é bem poder, ou não é poder nenhum ao pé do poder "conquistado", porque só este garante alguma forma de independência. Se é um "filme de género", como se tem dito, o "género" de "Um Profeta" é menos o do "filme de prisão" do que o do "filme de máfia" à americana - concretamente o "Padrinho", que também é uma história de educação e, à sua maneira, de predestinação. E já agora, a propósito de predestinações, se Bresson e Audiard, diferentes como a água e o vinho, tiverem algum gene em comum isso seria espantoso, mas Audiard parece lidar aqui com assuntos que também foram de Bresson - "o vento sopra onde quer" - e que ele também tratou em "filmes de prisões" (vários). Será forçar um pouco a nota, mas enfim, as notas existem para serem forçadas. De qualquer modo, acabamos "Um Profeta" remetidos ao "vazio" de Malik, à ilegibilidade do seu rosto, naqueles planos que Audiard faz acompanhar, na banda de som, por uma versão de "Mack the Knife", a canção Brecht/Weill oriunda de uma célebre opereta sobre o submundo e os seus códigos.

Se Audiard quis acabar em ambiguidade, acabou em beleza.

Luís Miguel Oliveira (in Público, 30 de Dezembro de 2009)