| |
| QUI 11 | Março | 2010 |
| Centro Cultural Vila Flor, 21h45 |
Sessão
n.º 2778 |
|
|
|
|
A Corte do Norte |
de João Botelho |
|
com Ana Moreira, Ricardo Aibéo, Rogério Samora, Custódia Galego
Argumento Adaptado. João Botelho, José Álvaro Morais | Fotografia. João Ribeiro | Origem. Portugal 2008 | Formato. 1.85:1 | Classificação. M/16
2008 - 122' |
|
João Botelho pega num dos mais complexos romances de Agustina Bessa-Luís com luvas de renda e um imenso cuidado de homenagear José Álvaro Morais, a quem dedica no genérico um exemplar do livro (como se lhe pertencesse, a ele Botelho, a autoria), e de quem herdou o argumento original de "A Corte do Norte". Este artifício determina, desde logo, uma enorme autonomia do objecto fílmico em relação à matriz literária: por um lado, o filme conserva o enigma do destino da Baronesa que se parecia com Sissi; por outro, a dimensão visual aponta para uma solução na medida em que a actriz, Emília de Sousa, aparece como prolongamento, mais ou menos óbvio, da figura, a que se substitui.
No entanto, nada é assim tão simples: o ovo de Colombo de escolher a mesma actriz (a fabulosa e perturbante Ana Moreira) para interpretar todos os papéis femininos principais constrói um labirinto representativo em que tudo se confunde e revela, ou seja: a semelhança de Rosalina com Emília, facilitando a identificação, não é maior nem menor do que com as descendentes da Baronesa, Rosamund e Águeda, ou com o seu duplo imediato e assumido, Elizabeth, Imperatriz da Áustria. A multiplicidade de tempos e de montagens em tortuosos "flash-backs" desdobra e reformula a hipótese de "thriller" numa saga familiar, iludindo a importância do mistério: nem se aspira a resolver nada, nem se oculta o objectivo de atingir, no fascínio de uma beleza fátua, feita de filtros, "travellings" sobre a paisagem recomposta, um falso decorativismo de época.
Como em quase todos os seus filmes, de "Conversa Acabada" ou "Tempos Difíceis" até ao mais recente e mal entendido "O Fatalista", Botelho interessa-se pelo "trompe l'oeil" que a matriz literária gera na matéria cinematográfica, levando-o numa outra direcção: um filme é um filme e os livros, os poetas ou a trama dramática desvanecem-se no desejo de simular alternativas, que dificilmente passam pela adaptação, pura e simples. Por isso, pouco conta saber se "A Corte do Norte" é, ou não, fiel (um filme não se reduz nunca a protocolos matrimoniais com o literário) ao romance que instrumentaliza - instrumentalizar é o termo adequado. Existe, por outro lado, no modo como se assume a transculturalidade do projecto (já "Tempos Difíceis" passava Charles Dickens para uma outra temporalidade, sem tempo bem definido, num Portugal abstractizado), o desejo infinito de corresponder a uma leitura de hoje, em que o passado histórico se arvora em gigantesca metáfora, mais ainda do que em Agustina. A problemática fulcral levantada poderá, pois, passar pelo seguinte: como se interroga, em 2009, o devir histórico fixado, já em retrospectiva, nos anos 80? Que sentido faz, em cinema, a reconstituição de época?
(...) Para que não se diga que "A Corte do Norte" emula o mestre portuense, convém lembrar o modo como se convocam outras matrizes: o Visconti de "O Leopardo" (mas também de "Senso", sempre ciente do distanciamento proposto), na cena do baile, até à dimensão operática, justificada pela narradora, a partir do texto romanesco - "La Traviatta" era a ópera preferida de Rosalina e a versão usada é a da Callas, com Giulini, em encenação de Visconti -, mas estendida para além da banda sonora, num excesso controlado; reminiscências de Buñuel, na estranheza de pormenores inseridos na acção; a "Madame Bovary" de Vincente Minnelli, para assinalar a pluralidade de abordagens possíveis ao motivo literário criado por Gustave Flaubert que se não esgotem na leitura de "Vale Abraão", livro e/ou filme.
(...) E, se se trata de um "filme de mulheres" (de mulher), estranhamente encaixado numa estratégia de género, ilude-se, em definitivo, a componente melodramática. As "ternas guerreiras" (para parafrasear um título antigo de Agustina) de "A Corte do Norte" cristalizam-se no arquétipo do feminino evanescente e, ao mesmo tempo, dominante, até por via da acumulação: uma actriz conduz a acção (como a personagem, por ela encarnada, que mostra aos turistas os percursos da História), mas nunca escapa à atmosfera de sonho instaurado, desde o início, pelos filtros e "véus". Aos espectadores, como aos turistas da ficção reconstruída, cabe a função de ligar os fios da teia, entretanto revelada neste belíssimo jogo de espelhos.
Mário Jorge Torres (in Público, 19 de Março de 2009) |
| |
|
|
|
|