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DOM 14 | Março | 2010
Centro Cultural Vila Flor, 21h45
Sessão n.º 2779
As Vidas Privadas de Pippa Lee
The Private Lives of Pippa Lee de Rebecca Miller


com Robin Wright Penn, Mike Binder, Alan Arkin, Winona Ryder, Monica Bellucci
Argumento. Rebecca Miller | Fotografia. Declan Quinn | Música Original. Michael Rohatyn | Origem. EUA 2009 | Formato. 1.85:1 | Classificação. M/16


2009 - 98’


Vista do exterior, a existência de Pippa Lee é um mar de rosas. Um exemplo da serenidade feminina, Pippa é a devota esposa de um editor de sucesso trinta anos mais velho, a mãe orgulhosa de duas crianças já crescidas e a fiel amiga e confidente de todos os que se cruzam com ela. Mas quando Pippa segue obedientemente o marido numa nova vida numa tranquila comunidade do Connecticut, o seu mundo idílico e a personalidade que ela construiu ao longo do seu casamento vão ser como nunca postos à prova.

Na verdade, a graciosa mulher do presente presenciou mais do que a sua quota-parte de perturbação no passado – um sem número de desventuras eróticas, uma mãe viciada em medicamentos e o suicídio de uma exótica rival – até encontrar amor e segurança na família a que pudesse chamar de sua. Embarcando numa viagem doce e amarga de auto-descoberta, com a ajuda de um novo, estranho e bem intencionado conhecido, Pippa é obrigada a confrontar-se ao mesmo tempo com o seu passado volátil e com os segredos escondidos do seu aparente mundo plácido, para encontrar a verdadeira razão para a sua existência, que sempre lhe escapara.


"As Vidas Privadas de Pippa Lee" confirma definitivamente a importância de uma realizadora, Rebecca Miller, que a pouco e pouco o espectador interessado foi descobrindo. E de forma peculiar já que é esse o modo como Miller aborda a realidade. O cinéfilo, necessariamente, já sabe que se trata da filha do grande dramaturgo Arthur Miller, e que a sua obra como argumentista e realizadora segue as mesmas fórmulas intelectuais, como provam as suas obras anteriores: "Velocidade Pessoal" (2002) e "A Balada de Jack e Rosie" (2005). Neste último já dirigira Daniel Day-Lewis, com quem é casada. Em "As Vidas Privadas de Pippa Lee", Rebecca Miller junta um elenco admirável onde Robin Wright Penn, na figura de uma frágil, simpática e delicada mulher de família, irá inesperadamente encontrar formas de um possível futuro tranquilo e feliz depois dos problemas que a família se habituou a viver. À sua volta há uma companhia de nomes de prestígio bem conhecidos como Alan Arkin, Keenu Reeves e um grupo de convidadas, que vão de Winona Ryder e Maria Bello à italiana Monica Bellucci, entre outras 'clássicas' como Shirley Knight. Um desfile perfeito assim como o elenco.

Manuel Cintra Ferreira (in Expresso, 8 de Janeiro 2010)


Rebecca Miller, a realizadora de As Vidas Privadas de Pippa Lee [estreado entre nós no último dia de 2009], é filha de uma das personalidades maiores da literatura e do teatro made in USA do século XX: Arthur Miller (a mãe, Inge Morath, foi também uma notável fotógrafa). O certo é que nem mesmo essa condição serviu para que o seu filme tivesse um lançamento que equivalesse, pelo menos, a um décimo do investimento de marketing com que são regularmente tratadas coisas absolutamete anódinas, quer em termos artísticos, quer industriais...

Escusado será dizer que não é a origem familiar (de Rebecca Miller ou seja quem for) que está em causa. O que está em causa é que um filme como As Vidas Privadas de Pippa Lee, fortemente apoiado no trabalho dos actores, já não consegue merecer os favores do mercado, mesmo quando, como é o caso, esses actores têm nomes como Robin Wright Penn, Julianne Moore, Winona Ryder, Monica Bellucci ou Keanu Reeves.

Aliás, a questão dos actores é ainda escassa para caracterizar o problema. O que está em jogo é que este cinema de raiz melodramática, estruturado a partir de uma escrita de notável subtileza (Miller é também a argumentista), passou a ser tratado como "coisa" industrialmente secundária e comercialmente irrelevante (o que, entenda-se, está muito longe de ser um problema meramente português).

Digamos, por isso, da maneira mais linear: As Vidas Privadas de Pippa Lee é o fascinante retrato de uma mulher que luta por encontrar alguma harmonia entre infância, adolescência e idade adulta, quer dizer, entre as histórias, isto é, as vidas a que se refere o título. Pensando no património clássico de Hollywood, isto quer dizer também que a herança de Elia Kazan está bem viva. E para que não nos falte o aconchego de alguma simbologia, lembremos que uma das actrizes do filme, Zoe Kazan, é neta do autor de Esplendor na Relva.

João Lopes (in sound--vision.blogspot.com, 1 de Janeiro de 2010)